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Um encontrinho bem australiano

Sexta é sempre um bom dia para celebrar, seja com amigos ou na melhor companhia de si mesmo. Nessa ocasião em registro, amigos queridíssimos me presentearam com sua companhia, regada de bom papo e alguma loucura. Alex e Will, direto de Melbourne, e Tubi, direto do mundo, com escala em São Paulo por tempo indeterminado. De casa, a maravilhosa marida e meu Peposo em forma de homem-delícia.

Logo que combinamos esse encontro de delícias em minha casa, fiquei matutando o que poderia ser o cardápio da noite. Premissa número um: coisinhas para beliscar que eu já pudesse deixar prontas pra curtir os amigos sem me preocupar. Premissa número dois: serem deliciosas.

Vejam o que aprontei:

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01. Abobrinhas assadas em lâminas com tomilho e servidas com amêndoas em lâminas tostadas.

02. Mix de shitake e shimeji com ervas, alho e limão siciliano.

03. Alho assado com sal grosso e especiarias.

04. Pasta de feijão germinado com limão siciliano.

05. Pesto de salsa com avelãs (minha especialidade!).

06. Mix de pimentas curtidas no azeite extra virgem (especialidade da Vanessa!).

07. Pasta de abobrinha com avelãs tostadas e especiarias.

08. Cebolas caramelizadas com molho agridoce de mostarda.

09. Tomates verdes assados com alho e tomilho.

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Pra acompanhar, pão de nozes do Olivier Anquier (um dos meus favoritos), pão italiano e pão folha (a melhor companhia das pastinhas!). Foi uma noite de regozijos com tudo que se possa esperar de um grande encontro de amigos que se querem bem. Enchemos a cara de vinho e a barriga com comida vegana de primeira qualidade.

Noite australiana em SP_03

Todos saímos felizes e eu, ogro, acordei duas vezes durante a madrugada quase tendo uma congestão de tanto comer. Perde-se a noção, alimenta-se os amigos e leva-se memórias pra vida inteira. Não consigo imaginar algo que possa fazer a vida valer mais a pena.

E o cenário que abraçou toda essa história: boa luz, plantas e arte. Precisa mais?

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A viagem de uma vida

Pra encerrar a semana, um curta metragem da trilogia “move, eat, learn”. É claro, o estímulo aqui é comida.

3 caras, 44 dias, 11 países, 18 vôos, 38 mil milhas, um vulcão em erupção, 2 câmeras e quase um terabyte de imagens. Tudo em torno de três ambiciosos conceitos lineares baseados em movimento, aprendizagem e comida, em três bonitos curta-metragens.

Rick Mereki : Director, producer, additional camera and editing
Tim White : DOP, producer, primary editing, sound
Andrew Lees : Actor, mover, groover

Sobrevivendo com uma mão

Aos 29 anos, debutei minha primeira fratura. Num pulo exagerado e desmedido, levei um dos maiores e mais ridículos tombos da minha vida, resultado de uma voadora mal sucedida que tentei (essa palavra merece grifo) dar na minha amiga, parceira de moradia e de kung fu. Sim, a tão citada Vanessa!
A queda, além de muita dor, me rendeu uma batida na bacia, ferimento no tornozelo e uma fratura na mão esquerda. Além de cuspir no piso de casa, de tanta dor que senti nesse tombo de costas limpas no chão, pude comprovar duas grandes coisas: é fácil se dar mal e tenho mais sorte que juízo.

Na volta do hospital, tomado pela fome devastadora, iniciei a odisséia de uma vida maneta. Se adaptar à tarefas simples é mais complicado do que eu imaginava. Um ossinho chamado escafóide conseguiu transformar minha vida num relato de gafes e incapacidades.

Digitar essa postagem, comer (arroz é medalha de ouro no drama da alimentação), tomar banho, limpar a bunda, escovar os dentes, amarrar os cadarços e outras tarefas ordinárias se tornaram um verdadeiro caso de superação pessoal. 

Numa virada brusca, comecei a ver o quanto pequenas coisas que não damos valor ou sequer sabemos que existem em nosso corpo, podem tornar a vida bastante difícil. Isso me fez despertar grato dia após dia, pelo corpo perfeito que tenho (em funcionamento, gente, que fiquer claro, pois a consciência das pernas finas e do nariz avantajado ainda habita esse ser) e pela oportunidade que tive de não me meter numa encrenca maior. Nesse período de, mais ou menos, dois meses de gesso, me afastei das operações culinárias, mas ganhei vários convites de jantares, com direito a vinho e carona. Além de bancar o convidado, me tornei um palpiteiro de mão cheia (aguardem a leva de trocadilhos infames como esse!) e acabei abrindo alas à novas e deliciosas experiências.

Abaixo, o registro fotográfico da paródia de mim mesmo.



Desenvolver novas técnicas para as velhas tarefas é uma maneira digna de não enlouquecer. Palmas, só na versão surdo-mudo ou batendo no peito. Imagine todo o resto!

Sal pra toda obra

Adoro amigos que viajam. Adoro amigos que contam histórias de viagem. E adoro mais ainda amigos que estendem a viagem para sua vida criando novas histórias com você. Dani Lin, uma amiga de São Paulo, do mais alto quilate, viajou há pouco tempo para Nova Iorque para curtir dias de férias com algumas amigas. Bem a la Sex and the City.


Na volta, além de muitas histórias e fotos lindas (as quais ainda se mantém em carácter teórico), ela me trouxe um presente surpreendente: um frasco com seis compartimentos recheados com diferentes tipos de sais. Sais para cozinhar!


Isso inclui
sal vermelho do Hawaí,
sal defumado,
sal de Guerande,
sal puro do oceano,
sal preto eurasiano e
sal rosa do Himalaya.
Sal a dar com pé!
Não fazia ideia que o mundo poderia nos reservar tanta variedade desse tempero indispensável. Uma viagem alucinante pra você chacoalhar e dar um toque de verve a qualquer prato.

Fiquei apaixonado pelas possibilidades que esses sais trouxeram pra minha cozinha e pela sensibilidade da minha querida amiga. Agora, devo criar vergonha na cara e oferecer um jantar em agradecimento a esse ingrediente que colocou qualquer traço de mediocridade na cozinha para viajar. E pra bem longe!

Dave’s Gourmet é o fabricante do Insane Seasonings.
Ô, salzinho bom pra temperar a vida.

Pode ir no Oscar Café

Morar com uma vegana não é a tarefa mais fácil do mundo, quando se é movido pela vontade de dividir a mesa com outras pessoas. Mesa de restaurante, que fique claro.
De tempos em tempos, a Vavá, uma amiga queridíssima, vem do Sul para resolver situações da vida aqui em São Paulo. Nessas movimentações, acabamos sempre nos encontrando e tendo a comida e as boas conversas como conectores dessa relação.

Como a vida é especialista em coincidências, a última vinda dela se intersectou com a visita do meu grande amigo Rike e com a disponibilidade da noite da Vane, a marida vegana. Rike e Vane são amigos de infância e eu sou um amigo que caiu de pára-quedas nessa dupla aos 15 anos de idade. Em resumo, tem muita história pra contar. O osso da noite foi juntar esse povo na mesma mesa para jantar.

Liguei para uma série de lugares e não tive muito sucesso ao desbravar os cardápios em busca de comida sem ingredientes de origem animal (premissa para ter a Vane em nossa mesa), até ligar para o Oscar Café, na Oscar Freire, 727. Fui super bem atendido e ficamos tranquilos com a flexibilidade e compreensão do lugar. Além da simpatia da atendente, tivemos a abertura total do chef em adaptar qualquer receita do menu. Sensibilidade é tudo.

Tivemos uma noite agradabilíssima, regada à fetuccinis de cogumelos para mim e o Rike, sopa de tomates com pesto de rúcula para a Vane e salmão com cuscuz marroquino para a Vavá. Pra beber: água tônica diet com gelo e limão, suco de tangerina, cerveja e suco de maçã, pêra e gengibre. Uma noite e tanto.

Dê um pulo no Oscar Café. Além de ser um lugar super charmoso, com pratos bem executados, tem uma loja no subsolo com uma série de objetos de decoração e livros. Devo confessar que o subsolo não é o foco de minha atenção, mas o restaurante é um canto a ser descoberto. Vá.


Vale a pena levar os amigos pra um papo.

Sanduíche sem nome

Ideias em dias ensolarados, de grama, de pano, comida, mato e queridos.
Café, doce de uva, suquinho. Violão do primo e do amigo, mãe do amigo, filha da outra amiga, amigas minhas agregadas e as protagonistas da novela “A colona e a nipônica”. Tudo perfeito no parque.
Por um tempo antes, plano. Preliminares perfeitas, de pique-nique. Passando café, cortando legumes, mexendo batata salsa na panela, misturando limão siciliano com azeite. Das mãos da Vanessa saíram sanduíches capazes de fazer duendes se revelarem no parque pra roubar um da cesta. Ou toda a cesta. Deu tão certo que seria uma gafe tremenda não postar aqui a receita.
Sanduíche Sem Nome da Vane

O que vai?
– Purê de batata salsa (mandioquinha ou batata baroa, depende do chão que estiver pisando). Aqui você amassa a dita batata salsa cozida com um pouco do próprio caldo, azeite de oliva extra virgem e sal;
– Fatias de abobrinha sapecadas com um fio de azeite;
– Tomates maduros e frescos, em fatias também;
– Molho de azeite, alho e limão siciliano, claro, toca sal e pimenta nessa mistura;
– Pão francês. A marida sugere preto. Pão preto (obviamente vegano, nai, Vanessi?)
Como montar?
Abra o pão, passe uma generosa camada de purê, acrescente fatias da abobrinha sapecada, fatias de tomate e o tal molho de limão. Tá pronto. Fica cremoso, colorido, com texturas diferentes… tem que provar!
Gosto do jeito dela cozinhar.
Depois de muito enrolar e comer sanduíches e ficar de papo na bancada da cozinha, perdemos parte da tarde, mas pegamos um sol gostoso e ficamos cultuando o ócio junto com bons amigos. Pinotes e manifestações de yoga e kung-fu tornaram a tarde ainda mais pulsante e divertida. Adoro aqueles dias ensolarados em que estou mais empolgado que as crianças. Parece que a vida passa em outro tempo. Quando falo de outro tempo, é outro tempo mesmo. Não tem relógio, é uma tacada de nostalgia que nasce da euforia dos pulos e da comida gostosa misturada com o verde e com nome de pique-nique. Dá pra imaginar domingo melhor?
Som que retrataria a tarde.

There’s too much to love, Belle and Sebastian.



Um mergulho com Vane

É incrível como a comida tomou um papel importante na minha vida, a ponto de me motivar da maneira mais genuína que se possa imaginar. Sábado de carnaval, encontrei um casal de amigas no mercado municipal de São Paulo. A Vane é uma grande amiga das antigas, filósofa, que estuda e defende a ética na alimentação, uma vegana convicta e lúcida nas suas atitudes e na busca de suas respostas. Decidi entrar na onda e me alimentar daquela atmosfera curiosa que se formou em torno dela. Passeamos pelos corredores coloridos de frutas, verduras, legumes, temperos, queijos, azeites de toda qualidade, castanhas de todos os tipos e gente experimentando esses sabores que preenchem todos os sentidos. Fiz umas comprinhas e descobri que o mercado municipal não tem nada de barato. Já tinha tempo que eu não pisava por lá, no entanto, não esperava que os preços estivessem beirando a falta de noção, como cobrar R$ 30 o quilo de caqui. Não dá, vamos combinar.

Tudo bem. Acabamos fazendo uma espécie de pique-nique numa das mesinhas do mercado, com alcachofras, cogumelos e alhos em conservas deliciosas, pasta de berinjela, pães finíssimos e crocantes e, para acompanhar, um suco de carambolas frescas pra lá de saboroso.
A Érica, namorada da Vane, precisava deixar alguns ingredientes em casa, então, saímos de carro pelo centro e ficamos dando voltas pra ver a cidade, que tava linda com a luz do final da tarde. Acabamos na Liberdade, andando pelas ruas e entrando naqueles mercadinhos cheios de tudo quanto é coisa que a gente não conhece. Tinha esquecido de como é bom mergulhar num mundo que não é seu e começar aprender com as dicas mal ditas pelas imigrantes de lá.

“Esse é tempelo. Calne, bom, bom na calne. E esse? Non non, esse não sel tempelo… Eu sei, mas o que é isso? Non é tempelo…”

A experiência em si é um barato. Você se diverte, descobre coisas novas, compra ingredientes bem mais em conta, dependendo em qual mercadinho entrar, e viaja nos costumes do povo de lá. Isso me rendeu uma sopa de cogumelos que comprei empacotada, daquelas embalagens de plástico com um monte de cogumelos desidratados, bolinhas e pedacinhos de plantas que você jamais viu na vida. Decidi fazer essa sopa para o jantar de segunda. Aquilo deve ter fervido por umas 3 ou 4 horas, mas os ditos cogumelos não amaciavam nunca! No fim, consegui um caldo saboroso, mas minha fome e falta de paciência em esperar mais, me fez mastigar os talos fibrosos de aparência demoníaca daqueles cogumelos. Sobrou, mas decidi não comer o resto, pra não tirar a mágica da “experiência única”.

Enfim, voltando pro eixo da história, acabamos no meu apartamento esperando a Érica chegar, abrimos um vinho e fiz uma vestimenta nela com um lençol – como aqueles saiotes amarrados dos indianos – e ficamos batendo papo e bebendo sem camisa. A Érica chegou e tomou um susto vendo a Vane sem camisa por trás da bancada. Parecia pelada. Aproveitamos e fizemos um belo ensaio de fotos, que estão servindo como base de algumas pinturas e desenhos que estou fazendo. Pra jantar, preparei um espaguete de abobrinha e cenoura (os legumes são cortados como espaguete, não tem massa essa receita) com shitakes tostados e molho à base de azeite e louro. Ficou bom, mas considero uma receita que precisa ser lapidada. De qualquer forma, caprichei na decoração, fazendo uma torrezinha circular com cogumelos inteiros e mini pimentas em conserva, dispostos em um belo prato branco quadrado. Bebemos duas garrafas de carmenére e deixamos a noite se tornar um registro da nossa juventude. Foi divertida, estimulante e profunda. Um daqueles encontros que jamais sai da memória.


As formas de Vane inspiraram a nova tela inacabada.