Traços de loucura

Desde a infância, sou tomado por dias de hiperatividade. Uma verdadeira montanha russa existencial, que horas me traz a paz e a tranquilidade de um monge, horas me leva sem pára-quedas até a porta do avião.

Em dias de ansiedade e inquietação, acabo canalizando minhas energias em tarefas minimamente produtivas. Às vezes, tento me convencer de que elas têm algum fruto, em outras, consigo vê-los brilhando no topo da árvore que sou. Foi num desses dias descompromissados e agitados que acabei desenhando algumas louças aqui de casa. Cacos velhos e sem padrão ganharam o bom humor e a ironia de um traço pouco pensado, mas leve como o vento de uma manhã ensolarada. Entre bigodes, óculos e retrato do meu sobrinho, a cozinha ganhou sutilezas e sorrisos internalizados, enquanto eu, uma sensação de reinventar a vida a partir de detalhes.
Compre uma caneta para porcelana e se arrisque estragar algumas louças. Talvez você se dê conta que não é uma grande revelação no desenho, mas sem dúvida, irá relaxar e colocar um pouco de si nos pequenos atos ordinários do dia-a-dia, que passariam despercebidos pelos olhos da maioria. Libere a mão e a mente e deixe a casa ser invadida de algum bom humor.
Os novos habitantes da minha cozinha.

Inaugurando o apê de Savieto

Sávio é meu sócio e grande amigo. Já tem um tempo que a gente trabalha junto e divide algumas ideologias, mas há pouco tempo nos tornamos sócios e escudeiros de coisas legais da vida. Nessa história de trabalhar nos moldes home-office, meu apartamento havia se tornado o QG das discussões e o vulgo ambiente de trabalho, porém, o Sávio tinha a rotina ingrata de atravessar a cidade pra gente poder resolver as questões da agência se olhando na cara. Levanta de madrugada, vai pra academia quase antes do sol raiar e aparece aqui em casa lá pelas 9h30, 10h da matina. Um saco pra qualquer cidadão. A partir dessa rotina desgastante, ele começou a procurar apartamento aqui perto de casa, pra poder deixar o carro em casa e trocar a buzina por um pouco de tranqüilidade. Nada de sucesso na busca até que, num de meus momentos de nôno Téo, forcei pra que ele fosse conversar com os caras que mais sabem de apartamentos disponíveis no mundo: os porteiros. Dito e feito, acabou vindo morar um apartamento ao lado do andar de baixo do meu.

Além dos medos declarados desse possível excesso de convivência (que pode levar a níveis gravíssimos, como pedir papel higiênico emprestado, no patamar mais dramático que se pode imaginar: ligando do banheiro e o vizinho tendo que levar. Não duvide! Melhor se precaver e estabelecer limites previamente. Gente é louca e a gente bem sabe disso!), rendeu um belo jantar de inauguração da cozinha. Se tratou de um penne ao limão siciliano e uma posta generosa de salmão ao limão com crosta de castanha de cajú, tudo regado a um bom azeite. Um exagero, levando em consideração o dia de merda que tivemos. Teria comido feliz um sanduíche de presunto e queijo com café com leite, porque, de mim, só restava alguma energia pra raspar limões e bocejar.
De qualquer forma, meu novo vizinho não fez feio no abre alas do apê. Pelo contrário, mandou benzaço, Savieto!