O chá do momento

Sem rodeios, o Lady Grey se tornou um dos meus chás favoritos. Numa tarde de sol, no Museu da Casa Brasileira, é que o pedi pela primeira vez e, a partir daí, tive momentos super agradáveis à sua companhia. Não tão agressivo como o bom e velho chá preto nem com tantos floreios quanto os sabores de flores e frutas que encontramos por aí. Na medida.

Não sei quanto a vocês, mas sempre acabo criando associações entre meus sentidos. Para o Lady Grey, uma pintura deslumbrante de Georges Seurat. Assim como o chá nos possibilita a percepção sutil de uma série de aromas, ele nos permite entender os acordes de cor, onde as mais diversas escalas cromáticas se misturam formando tonalidades inusitadas e que se transformam à medida em que você se aproxima da obra.

Respire fundo, sinta o hálito quente do chá e abra os olhos para contemplar essa obra. Permita-se viver os pequenos prazeres mundanos que apenas nossos sentidos são capazes de proporcionar. Aliás, haveria outra forma de perceber o mundo senão por meio deles?

A menina e a maçã

A experimentação é uma das coisas mais curiosas e estimulantes da vida. Ela nos impulsiona para o novo, seja nas emoções ou na racionalidade. De uma maneira bastante empírica, juntei a delicada ilustração da menina com a maçã, feita em papel paraná (o qual quase matou a ponta do meu dedo indicador direito de tanto apertar o estilete para cortá-lo com precisão) com essa moldura pesada dos anos 30, encontrada em um antiquário no centro de São Paulo (quase tive que dar um de meus rins por ela). A combinação me fazia delirar, mas faltava algo para dialogar entre os dois elementos. Comecei a andar lentamente pelo apartamento, olhando atento para todos os detalhes. Foi quando avistei uma caixa transparente cheia de embalagens de bombons Ferrero Rocher. São lindos papéis metálicos que me fazem lembrar a infância, especificamente, quando eu alisava aquele lacre metálico das latas de Nescau com uma colher pra fazer desenhos com palitos de dente. Me debrucei sobre as embalagens com uma colher, régua e estilete e comecei a testar combinações. O resultado foi o fundo xadrez da obra, fruto de uma longa de relação de paciência com esses materiais. Foi um processo lento e trabalhoso, também, porque a obra não foi pré-concebida, mas sim, se transformando a partir de mergulhos com os materiais e a história que eu pretendia contar, que revela características que admiro no universo feminino, como a capacidade de retratar o romantismo com força e delicadeza. No caso, essa obra é abraçada por um certo ar medieval, coisa que me agrada bastante, pois nela, tem um apreço pelos sentimentos, algum pudor nas suas expressões e um desejo latente habitando a relação entre a menina e a maçã.

Trilha sonora: Long way home, Tom Waits (vale a pena escutar a versão da Norah Jones)

Pra comer ou pra vestir?

Pra admirar. Sung Yeon Ju construiu belos vestidos com diferentes tipos de alimentos e os fotografou. A artista coreana deixa claro que as boas referências se entrelaçam e quebram formatos na produção de arte contemporânea. Um olhar sensível sobre moda, gastronomia e fotografia. Devo confessar que essa leva de criações admiráveis deixou o vestido de carne da Lady Gaga no chinelo. Além do mau gosto da carne crua vestida “em pêlo”, a composição era tosca e sem nenhum propósito que não fosse a polêmica gratuíta. Sung mostrou o outro lado da moeda.

Comida com cara de arte


Essa composição foi feita para uma marca de equipamentos de luxo para cozinha. Foi a legítima situação em que pude unir duas coisas que amo: comida e arte. Quase atingi um novo estado de consciência tendo que recortar tantas fotos e encontrar o ponto de equilíbrio estético entre tantos elementos.

Gostei muito do resultado, apesar disso ter que ser todo refeito depois, com fotos produzidas. De qualquer forma, foi mais um trabalho que sentei e fiquei saboreando o depois da gestação.