O melhor bolo de chocolate do mundo

Já tinha um tempo que eu ouvia comentários sobre o tal melhor bolo de chocolate do mundo. Pensei: “deve ser uma coisa de outro mundo. Não vejo a hora de provar!” Sábado, em busca de alguns acessórios pra uma amiga cross dresser que debutaria naquela noite para um fragmento da sociedade paulistana, me deparei com um quiosque do better cake, lá no shopping Paulista. Depois de brigar com minha amiga trava (ela estava ansiosa demais por causa da exposição pública daquela noite) , deixei ela e minha marida caminharem um pouco sozinhas pelo shopping e decidi me encher de chocolate e coca-cola naquele estabelecimento.

Havia uma ansiedade em torno de mim e fiquei entusiasmado quando me entregaram a bandeja com a fatia de bolo tradicional e a lata do xarope negro do capitalismo.

Oras bolas, que falácia! O bolo é gostoso, mas não tem nada demais, o que faz com que você se sinta um trocha enganado por uma “jogada de marketing” mentirosa. É impossível não sair frustrado, se tiver o mínimo repertório no universo dos chocolates e, nesse caso, não é preciso ter provado mais que uma nega maluca bem feita por sua mãe ou por alguma tia caprichosa. Primeiro lugar, pra se denominar o melhor bolo de chocolate do mundo, é necessário uma volta ao mundo com essa temática. Em segundo lugar, quanta pretensão, minha gente! É muita auto-felação.

No meu ponto de vista, é o tipo de produto que se faz em cima de uma farsa e de uma ideia malandra – no pior sentido da palavra – ao tentar tirar vantagem da curiosidade das pessoas (afinal, essa coisa dos recordes ainda mexe com a cabeça de todo mundo). Além disso, oferecem chás caríssimos que não valem os preços praticados. Em resumo, uma enganação. Se você tiver um aplicativo do dicionário Aurélio em seu celular ou tablet, é capaz de encontrar uma foto desse bolo como exemplo da palavra “falcatrua”.

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Francês de olhos puxados

Essa temporada sem escrever aqui no blog me trouxe uma série de inquietações. Muitas fruto da impossibilidade de habilidade e tempo pra colocar determinadas criaturas no mundo. Mesmo sem escrever, não parei de me aventurar pelo universo da gastronomia. Sem colocar a mão na massa, em função de não conseguir executar tarefas básicas, como cortar um tomate ou descarcar alhos, mas com o apetite e a curiosidade de sempre acentuados. Mais do que nunca, passei a encarar a comida como uma compensação das merdas da vida. Mesmo dentro de uma ótica positiva, merda é merda. Aprendemos com os tropeços, nos tornamos pessoas melhores, mas os calos não deixam de doer por isso.

Nessa temporada de busca por compensações, acabei sendo levado por duas amigas a um restaurante super charmoso, lá na Vila Madalena, o Les Delices de Maya. Segundo elas, eu precisava conhecer o tal lugar e experimentar uma massa super especial preparada pela Maya, chef e dona daquele cantinho charmoso. Como se trata de um prato que ela prepara quando dá na telha, pelo que pude entender, acabamos dando sorte em chegar lá e ser o dia do macarrão cozido em algas com gengibre e farofa de gergelim. Estranho e delicioso, na mesma proporção. A versão original vem acompanhada de camarões, mas pedi que a chef fizesse uma versão vegetariana pra mim. A adaptação foi digna de sucesso de bilheteria.

Quando o prato chegou, vivi o que há anos não acontecia: experimentar algo novo, tão longe das suas referências, que você mal sabe como reagir. É quase como uma criança descobrindo o mundo e tendo espasmos de admiração. As garfadas vieram acompanhadas de felicidade e resmungos de prazer. No final do prato, fui obrigado a jogar fora minha elegância e pedir que me servisse mais uma porção.

Além do prato delicioso, fomos atendidos de maneira especial e carinhosa, com direito a dicas de livros e histórias de vida.

Finalizamos o almoço com uma rodada de sobremesas: cheesecake com calda de frutas vermelhas pra mim, pudim de leite pra Ci e bolo de chocolate sem farinha pra Andrea. Claro, as sobremesas passaram pela boca de todos, pois é inaceitável enfrentar tantos sabores maravilhosos sem compartilhar com quem divide a mesa com você. Ainda mais quando falamos de doces!

Esse cantinho merece ser descoberto. Vá até a Morato Coelho, 1044. Além de ter uma refeição incrível, aproveite para levar as caldas e molhos especiais para salada que a chef Maya Midori prepara. Eu levei um molho de framboesas com azeite e balsâmico que quase transcendeu minha relação com as folhas verdes.

Andrea e Ci, muito obrigado pela descoberta!

Nessa aventura, descobri John Fante.
Ouça “Crazy”, na versão da Norah Jones depois de ler essa postagem.
A imagem daqui é uma composição que fiz a partir de uma foto que achei na internet. Não sei pra quem dar os créditos.