Nova aquisição lá de casa

As meninas lá de casa, volta e meia, aparecem com alguma novidade. Dessa vez, foi a cafeteira Globinho. Elas estavam loucas por um ar retrô, que trouxesse o requinte e sofisticação das mais seletas sapatonas. Não é um Karmanguia, mas tá valendo!

O interessante foi que na primeira tentativa de passar um café, não obtivemos absoluto sucesso, pois faltou um combustível eficiente. Havia apenas álcool hidratado. Por uma questão de teimosia, acabamos passando o café segurando o maçarico de flambar embaixo do reservatório de água. Nada econômico, nada sustentável, mas rolou. Na segunda tentativa, depois de passar no mercado e comprar álcool apropriado, tentei passar novamente. Quando chegou no final do processo, onde deveríamos ter o mais saboroso e aromático café, explodiu a tampa da cafeteira e lambuzou toda a cozinha de borra de café. Além do café não ter ficado tudo aquilo, passei parte da minha tarde limpando a cozinha e pensando se algum dia ainda voltarei a usar a tal cafeteira. Acho que vale a terceira tentativa pra tirar a teima, mas essa, vou passar na entrada do prédio ou envolver a cafeteira em uma lona. Só pra garantir…

A cafeteira Globinho é um acontecimento. Não funciona direito, mas faz a linha bonitona. Do design do produto ao bigodinho do conquistador da embalagem... naipe inconfundível!

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Dia bom

Domingo ensolarado, primos queridos, passeio no parque e comida boa. Dêem uma olhada no que aprontamos na cozinha depois de praticar yoga no Ibirapuera, andar entre uma multidão de cachorros e donos felizes e bater um papo bom tomando sol na beira do lago.

Prato principal

Penne ao tomate e ervilha torta

Frite cebola no azeite extra virgem e coloque uns três ou quatro dentes de alho inteiros e duas folhas de louro fresco pra tostar junto. Quando estiver tudo dourado, acrescente meia beringela em cubos grandes. Se você quiser melhorar o sabor da beringela, deixe ela de molho na água com bastante sal alguns minutos antes de jogar na panela. Claro, escorra antes. Segundo as más línguas, isso evita que a beringela fique amarga. Em seguida, acrescente a ervilha torta e detone no azeite, até empapar a comida nele. A base do molho é essa. Salgue e moa pimenta verde na hora. Você determina a quantidade de acordo com teu humor. Em seguida, coloque dois tomates italianos bem maduros cortados em quatro partes com o miolo virado para baixo. Não mexa mais. Deixe tudo isso no fogo, dourando e soltando sabor. Quando os tomates estiverem levemente mais molinhos e com a base dourada, dê uma mexida e acrescente queijo parmesão ralado grosso na hora. Exagere. Eu costumo cozinhar a massa com folhas de louro, pimenta e sal grosso. Quando estiver al dente, escorra e coloque dentro da panela do molho e vá misturando gentilmente em fogo baixo. Desligue e sirva. Fica leve, colorido e super saboroso.
Sobremesa
Animando o domingão com morango e chocolate

Diagrame um prato fundo, daqueles pequenos, com a seguinte combinação:
– Sorvete de creme com crocante (apostei no Baden Baden, mas use o que mais gostar).
– Brownie com nozes (me atrevi a comprar pronto no mercado, em nome da praticidade que honraria meu domingo ocioso).
– Calda de morango com limão siciliano: bata no liquidificador uma bandeja de morangos com um limão siciliando e açúcar. 15 segundos e tá pronto. Cítrico, fresco e delicioso.
– Decore com raspas da casca do limão siciliano e cardamomo grosseiramente triturado.
Se tem algo que você vai ouvir serão os resmungos de prazer, pois essa sobremesa é um escândalo dentro da boca. Doces muito bem harmonizados com a adstringência do morango com limão e a excentricidade do cardamomo. Agora, preciso batizar essa sobremesa pra que ela passe a existir no mundo de maneira oficial. Tente fazer e deixe uma sugestão de nome.

Traços de loucura

Desde a infância, sou tomado por dias de hiperatividade. Uma verdadeira montanha russa existencial, que horas me traz a paz e a tranquilidade de um monge, horas me leva sem pára-quedas até a porta do avião.

Em dias de ansiedade e inquietação, acabo canalizando minhas energias em tarefas minimamente produtivas. Às vezes, tento me convencer de que elas têm algum fruto, em outras, consigo vê-los brilhando no topo da árvore que sou. Foi num desses dias descompromissados e agitados que acabei desenhando algumas louças aqui de casa. Cacos velhos e sem padrão ganharam o bom humor e a ironia de um traço pouco pensado, mas leve como o vento de uma manhã ensolarada. Entre bigodes, óculos e retrato do meu sobrinho, a cozinha ganhou sutilezas e sorrisos internalizados, enquanto eu, uma sensação de reinventar a vida a partir de detalhes.
Compre uma caneta para porcelana e se arrisque estragar algumas louças. Talvez você se dê conta que não é uma grande revelação no desenho, mas sem dúvida, irá relaxar e colocar um pouco de si nos pequenos atos ordinários do dia-a-dia, que passariam despercebidos pelos olhos da maioria. Libere a mão e a mente e deixe a casa ser invadida de algum bom humor.
Os novos habitantes da minha cozinha.

Compotas de lamber os beiços

Feriado e comida combinam. A Vanessa e a Érica passaram a noite de quinta na minha casa. Fomos dormir cedo, mas acordamos com a corda toda pra iniciar uma jornada pelos sabores da cozinha vegana. Passamos num feirão perto de casa e enchemos um carrinho de legumes, frutas e verduras. Estávamos decididos a passar o feriado na cozinha. Preparamos um penne frito e cozido no caldo de legumes (feito artesanalmente, pra não perder o romantismo), servido com molho à base de cogumelos paris in natura e salsa. A massa deu certo, mas já descobrimos maneiras de deixá-la ainda melhor: cozinhando o caldo de legumes por mais tempo em fogo baixo. Mas, a grande atração do dia foram nossas compotas, que encheram nossa tarde de cores, experimentações e nostalgia. Dá uma olhada em algumas das receitas que aprontamos no dia do trabalho.

Pimentões ao forno
Vermelhos e amarelos. Pegue 4 de cada. Ou mais. Besunte tudo com azeite de oliva extra virgem, sal grosso, pimenta verde, tomilho fresco e um exagero de alho. Como foram muitos pimentões, tive que dividir em duas formas, o que me fez brincar um pouco mais com os sabores. Na segunda travessa, acrescentei salsa picada e saquê. Tudo pro forno. Cochilamos assistindo TV, depois de um almoço vegano pra lá de bom. Acordei e corri num susto para a cozinha ao lembrar que tinha esquecido tudo no forno. O que poderia ter virado os restos de um incêndio, se transformou em um antepasto saborosíssimo. Os pimentões tostaram e ficaram com um gosto adocicado em meio ao perfume dessa combinação deliciosa. Colocamos os pimentões em vidros de molho que sobraram de outras aventuras semi-industrializadas na cozinha e completamos com azeite de oliva extra-virgem. Foi uma extravagância de azeite. E é assim que tem que ser. Renderam dois vidros super coloridos e um foi detonado já no almoço do dia seguinte. Nada mais gostoso que se lambuzar comendo essas delícias coloridas no meio de um pão fresquinho.
Beringelas tostadas
Pegue mini beringelas e as corte ao meio. Coloque uma panela pra esquentar e toste a parte de dentro das beringelas direto na chapa quente. Depois disso, tempere essas metades tostadas com sal, pimenta verde, tomilho fresco, alho e muito azeite de oliva extra virgem. Depois de fazer uma bela massagem nessas pequenas, você as manda pro forno. Deixe lá por uns 20 ou 30 minutos. Vai no feeling. Prefiro não ditar tempos e quantidades porque acredito que a comida deva ter esse lado intuitivo funcionando durante o preparo. Assim que estiverem assadas, as acomode gentilmente em um vidro, complete com azeite extra virgem e tampe. Simples, simples, mas bom demais.
Tomatinhos cereja
Num potinho, misturei azeite extra virgem com sal, pimenta e alho. Mexi com vontade para garantir que esses sabores se envolvessem com o protagonista dessa compota. Coloquei alguns tomatinhos e fui intersectando delicadamente com folhas de manjericão e alho. No final, completei com mais azeite até todos os ingredientes ficarem imersos. Fácil de fazer, mas um charme para servir seus amigos com uma cesta de pães e um belo vinho.
Tente fazer isso em casa. Abra um vinho ou tome alguns goles de uma cachaça que preste e aprecie a tonturinha ao lado de amigos queridos. É um grande prazer poder alimentar e ser alimentado, não apenas o corpo, mas a mente e a alma. É simples.
Trilha sonora: cd duplo da Nina Simone, Tell it like it is. Inexplicável.

Risoto feito em casa

Sábado foi um dia excelente.

Carol e eu acordamos com a sensação boa depois de uma noite de concerto na Sala São Paulo (evidenciada pela gostosa surpresa de ganharmos os ingressos, na boca da bilheteria, de duas senhoras pra lá de simpáticas que levaram um cano de alguns de seus convidados e decidiram nos fazer uma doação. Maravilha!).
Carol é uma grande amiga do Rio, já citada por aqui, uma mente inquieta que sempre traz bons ventos e sutilezas que enriquecem a vida. A noite foi guiada pela certeza de que pessoas do bem que emanam o bem, atraem a mesma coisa.
Perto do meio-dia ensolarado, fomos ao mercado e compramos alguns ingredientes para o almoço. Recebi um povo em casa para assistir o novo documentário de um amigo sensível e de pensamento profundo: o Ale Melo. Preparamos um risoto a la marguerita que, no fim das contas, foi coadjuvante no meio da questão emocionante colocada pelo filme: uma discussão ampla sobre preconceito tendo como base a ótica de anões. Lindo, humano e sensível.
Antes disso, abrimos uma garrafa de espumante e começamos a preparar o terreno para o arroz carnaroli entrar em ação. Cebola, alho, pimenta verde, tomilho, meia garrafa de vinho branco, tomates concassé, sal e caldo de ervas pra cozinhar o dito cujo (ferva tomilho, louro fresco e coloque um caldo da sua preferência, se achar que precisa). Pra finalizar, meio maço de manjericão, mussarela de búfala em bolas cortadas em quatro partes e uma porção generosa de queijo parmesão ralado grosso. A tonturinha do espumante deixou todos borbulhantes para uma refeição leve e saborosa, acompanhada de folhas de rúcula e cogumelos frescos no azeite e sal de roca, aguçando a sensibilidade do povo para o documentário, que veio como um sopro refrescante de um mundo que desconhecemos.
Minha casa se encheu de novas lembranças e fortaleceu a importância de estar cercado de pessoas que enriqueçam sua vida, que te questionem e te empurrem para um caminho tranformador e que te faz alguém melhor. Me tomei por um sentimento de felicidade e gratidão, entendendo que a vida muda de sabor quando decidimos fomentar as boas oportunidades.
Se quiser tentar o risoto, vai em frente, é fácil de fazer. Siga a ordem dos ingredientes que citei, frite a cebola, o alho, o arroz, coloque a meia garrafa de vinho quando tudo estiver dourando, acrescente os tomates e vá regando com o molho de ervas. Fácil, fácil. Só não esqueça de convidar pessoas interessantes que tem algo a dizer. Isso, sim, vai dar o tom da mesa.

A gamela mágica

Florianópolis, praias, montanhas, natureza e um tempo de merda! Viajei a trabalho durante quatro dias, hospedado no Costão do Santinho, que foi considerado o melhor Resort Praia do Brasil algumas boas vezes. Do minuto em que cheguei à madrugada final da minha estadia, a chuva e o céu cinza dançaram como loucos sobre minha cabeça, sem poupar o sapateado.

Depois de dois dias de muito trabalho e viradas de noite, acabei fazendo um pit stop pra rever uma grande amiga de Floripa, a Chef Didi, já comentada por aqui (a dona do santo cookie).
Não havia dúvida que acabaríamos em uma orgia gastronômica em algum lugar, só não se sabia onde e como, mas sabíamos da comida. Decidimos passar no mercado e preparar uns quitutes em casa. A mente efervescente da Didi pariu uma idéia que acabou virando uma surpresa deliciosa. Entre legumes, camarões frescos e salmão, existia minha dúvida se aquela seria a receita ideal pra uma noite de frio. Passamos em um empório e compramos um vinho rosé brasileiro, da Villa Francioni. Continuei reticente, principalmente, porque não sou um grande fã de vinhos brasileiros.
Chegamos em casa, fizemos fogo na churrasqueira e começamos um espetáculo na grelha. Cogumelos inteiros, tomates pela metade e brócolis temperados ao azeite e curry, camarões frescos e salmão com ervas, pimentão verde, cebola roxa, uma peça maravilhosa de queijo gruyere e 
pães. Tudo tostando na grelha.

Abrimos o vinho e cheguei a conclusão de que a língua é o chicote da bunda. Um rosé que ganhou meu respeito e me fez olhar para esse “terroir brasileiro” com outros olhos.
Essas maravilhas douradas foram servidas em uma gamela de madeira, acompanhadas de alecrim e queijo brie. Tudo consumido à mão, de maneira viceral e insubstituível.
A noite foi uma odisséia regada a sabores intensos, conversas deliciosas em inglês e tonturinha de vinho bom.
Na manhã seguinte, iniciei meu dia tomando um belo café da manhã no Dom Joaquim, café onde a Didi chefia a cozinha. Além da boa lembrança da noite anterior, provei um cheesecake de lamber os dedos, também criatura da Chef Didi.
No meio de trabalho e loucuras que a economia coloca em nossas vidas, precisamos buscar conforto nesses pequenos prazeres, pois são eles que acabam fazendo da nossa vida o que a vida realmente é.