Histórias do passado: a distância dos sorvetes

Vez ou outra, meus pais levavam minhas irmãs e eu tomar sorvete aos domingos. O ritual era ir até a sorveteria Donalds e dar uma caminhada pelos arredores da igreja. Meu pai sempre pedia pêssego, minha irmã mais velha flocos, minha mãe misturava abacaxi com alguma coisa, minha irmã mais nova pedia tudo que era mais doce e artificial, como sorvetes sabor chiclete com confeitos coloridos; e eu, sempre, sempre, sempre cereja. Era meu sabor favorito. Adorava o gosto artificial do sorvete de cereja da sorveteria Donalds, que ficava no alto da avenida Getúlio Vargas, em Chapecó. No meio da massa, vinha pedaços de cerejas artificiais (rezava a lenda que elas eram feitas de xuxú). Eu pouco me importava se eram de verdade ou não, eu sei que eu adorava!

Era muito raro tomarmos sorvete ou comer qualquer coisa que não fosse a comida feita em casa pela minha mãe. Lembro uma vez que fomos para Concórdia – a cidade que nasci e onde passávamos vários finais de semana visitando parentes -, e passamos numa sorveteria, por pressão minha e de minhas irmãs. Entramos todos alvoroçados, possuídos por uma força inexplicável. Quando cheguei no balcão da sorveteria, foi como se a cena toda acontecesse em câmera lenta ao ver uma banana split montada. Não era uma simples banana split, pois naquela versão, as bananas eram revestidas de chocolate. Fiquei encantado e a queria mais do que tudo. Era quase sexual meu desejo pela banana split. Eu estava excitado, com todos meus sentidos em parafuso. Pedi repetidamente para meu pai dar uma pra mim. Como era cara, meu pai inventou uma mentira, junto com o sorveteiro, de aquela banana split era falsa e que as bananas estavam em falta. Eu fiquei furioso, porque sabia que eles estavam me mentindo, mas eu não tinha força – nem lábia – pra lutar contra dois adultos. Então, acabei levando uma bola de sorvete de morango, que me deixou feliz, mas fiquei com aquela banana split na cabeça durante anos.

Acho que essa característica da minha infância, de não poder experimentar coisas que outras crianças experimentavam normalmente, acabou me colocando numa condição meio extravagante depois que comecei a ganhar meu dinheiro. Meu primeiro salário, aos 13 anos, virou uma calça jeans (ganhava 30 cruzeiros na época, um dinheiro enorme pra alguém da minha idade, mas que meses depois, vi que não passava de trocados), depois, o foco foi comida. A partir daí, decidi que meus desejos por comida, de maneira bem colocada, deveriam ser atendidos e contemplados com toda a beleza que o presente pode ter. Hoje, continuo tentando encontrar um sorvete de cereja, pelo sabor da nostalgia, mas dessa vez, um de verdade, feito com frutas de verdade e, se possível, sem lactose.

Anúncios

Diquinha multiuso

Bata no liquidificador uma bandeja de morangos, um saquinho de cerejas (tire os caroços), esprema um limão siciliano, um pouco de raspas da casca, algumas folhinhas de hortelã e açúcar. Tudo fresquinho! Nada de usar cerejas em conserva e hortelã desidratada. Faz toda a diferença.

O resultado é uma calda fresca deliciosa. Cítrica, saborosa e saudável.

Você pode serví-la sobre sorvetes, brownies, frutas com lâminas de amêndoas tostadas ou qualquer outra sobremesa bem doce, pois o azedinho da calda refresca e deixa qualquer overdose de açúcar tragável.

Pra beber, você pode colocar um pouquinho dessa calda no fundo de uma taça e servir com pró-seco, mas o melhor mesmo é preparar o fundo de um belo copo com gelo até a boca, encher de vodca de qualidade e completar com Schweppes Citrus. Fica bom demais!