Rigattoni ítalo-nipônico

É pessoal, engordar é uma arte! Nesse feriadão de Páscoa, me atirei de cabeça no maravilhoso mundo dos carboidratos, ressurgindo com toda a culpa cabível nessa segunda-feira de reflexão sobre as proporções do meu corpo. Um dos vilões foi um rigattoni de shimejis com azeite de ervas finalizado com pesto de salsa. Isso mesmo! Uma selvageria sem tamanho! Não comemos de joelhos porque a casa estava imunda, porque ao contrário, teríamos nos atirado sem medo no chão dessa casa.

Aconteceu assim: fervi a água com galhos brutos de louro e salguei como se fosse água do mediterrâneo. Numa panelinha singela, em fogo baixíssimo, cozinhei lentamente alguns dentes de alho cortados pela metade imersos em uma generosa quantidade de azeite extra virgem, junto com folhas de louro, osmarim, salsa e cebolinha frescas, sal e pimenta jamaica. Enquanto cozinhava na velocidade de uma lesma (sim, precisa ser em fogo bem baixo pra não saturar o azeite), fritei os shimejis com azeite, osmarim e cebolinha, já salguei pra eles soltarem bastante líquido, o qual misturei com o azeite de ervas. Quando os shimejis ficaram bem dourados e salgadinhos, dei um banho de mirin (saquê para cozinhar) e deixei dar uma secada de leve até o álcool evaporar e os shimejis absorverem o sabor do saquê. No final, misturei o azeite de ervas com os shimejis e remexi com os rigattonis cozidos al dente.

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Pra arrematar em alto estilo, fiz um pesto de salsa super simples e delicioso: um maço de salsa fresca, um dente de alho, o suco de um limão siciliano, sal, pimenta, azeite extra virgem a dar com pau e avelãs tostadas. Bati tudo no liquidificador e fui ser feliz!
Tente fazer em casa!

Importante: Não costumo dar quantidades das receitas, porque acredito que comida é feeling. Encaixotar as quantidades é o primeiro passo pra receita não ficar tudo aquilo. Prefiro dar noções e deixar o amor pelos sabores se manifestar em algo quase transcendental.

Francês de olhos puxados

Essa temporada sem escrever aqui no blog me trouxe uma série de inquietações. Muitas fruto da impossibilidade de habilidade e tempo pra colocar determinadas criaturas no mundo. Mesmo sem escrever, não parei de me aventurar pelo universo da gastronomia. Sem colocar a mão na massa, em função de não conseguir executar tarefas básicas, como cortar um tomate ou descarcar alhos, mas com o apetite e a curiosidade de sempre acentuados. Mais do que nunca, passei a encarar a comida como uma compensação das merdas da vida. Mesmo dentro de uma ótica positiva, merda é merda. Aprendemos com os tropeços, nos tornamos pessoas melhores, mas os calos não deixam de doer por isso.

Nessa temporada de busca por compensações, acabei sendo levado por duas amigas a um restaurante super charmoso, lá na Vila Madalena, o Les Delices de Maya. Segundo elas, eu precisava conhecer o tal lugar e experimentar uma massa super especial preparada pela Maya, chef e dona daquele cantinho charmoso. Como se trata de um prato que ela prepara quando dá na telha, pelo que pude entender, acabamos dando sorte em chegar lá e ser o dia do macarrão cozido em algas com gengibre e farofa de gergelim. Estranho e delicioso, na mesma proporção. A versão original vem acompanhada de camarões, mas pedi que a chef fizesse uma versão vegetariana pra mim. A adaptação foi digna de sucesso de bilheteria.

Quando o prato chegou, vivi o que há anos não acontecia: experimentar algo novo, tão longe das suas referências, que você mal sabe como reagir. É quase como uma criança descobrindo o mundo e tendo espasmos de admiração. As garfadas vieram acompanhadas de felicidade e resmungos de prazer. No final do prato, fui obrigado a jogar fora minha elegância e pedir que me servisse mais uma porção.

Além do prato delicioso, fomos atendidos de maneira especial e carinhosa, com direito a dicas de livros e histórias de vida.

Finalizamos o almoço com uma rodada de sobremesas: cheesecake com calda de frutas vermelhas pra mim, pudim de leite pra Ci e bolo de chocolate sem farinha pra Andrea. Claro, as sobremesas passaram pela boca de todos, pois é inaceitável enfrentar tantos sabores maravilhosos sem compartilhar com quem divide a mesa com você. Ainda mais quando falamos de doces!

Esse cantinho merece ser descoberto. Vá até a Morato Coelho, 1044. Além de ter uma refeição incrível, aproveite para levar as caldas e molhos especiais para salada que a chef Maya Midori prepara. Eu levei um molho de framboesas com azeite e balsâmico que quase transcendeu minha relação com as folhas verdes.

Andrea e Ci, muito obrigado pela descoberta!

Nessa aventura, descobri John Fante.
Ouça “Crazy”, na versão da Norah Jones depois de ler essa postagem.
A imagem daqui é uma composição que fiz a partir de uma foto que achei na internet. Não sei pra quem dar os créditos.