Noel Rosa e a cerveja

Noel Rosa é um cara que dedicou sua vida à noite. Boêmio por natureza, viveu e bebeu suas mais de duzentas composições. Desde seus 18 anos de idade, dormia durante o dia e trabalhava durante a noite e as madrugadas nos botecos. Seu expediente durava até às 6h da matina, no escritório de seu Vicente, um português apaixonado por samba, onde atendia telefone, recebia amigos e compunha suas melodias.

A tuberculose foi uma das companheiras de Noel Rosa. Ele espara baixar sua febre para voltar aos botecos e encher a cara de cerveja. Fumava como um condenado e bebia Cascatinha bem gelada – sua cerveja predileta – a bons e fartos goles.

Certa vez, um amigo o questionou, meio espantado ao vê-lo doente enchendo a cara de cerveja. Noel Rosa respondeu: “A cerveja gelada não me pode fazer mal, nem trazer minha tosse e minha febre de volta. Muito pelo contrário. O gelo, como sei que você também sabe, paralisa os micróbios. Congelados, os bichinhos sossegam. Como você vê, cerveja gelada é um santo remédio.”

Outro amigo, mais indignado, não engoliu a desculpa e decidiu ajudar a cavar a cova de Noel: “Está certo você. Garçom, me traz outra cerveja, mas quente!”

Tempos depois, bem doente, Noel foi flagrado tomando cerveja com conhaque. Como nunca se alimentou direito, arrumou mais uma desculpa, alegando que estava se alimentando, pois a cerveja contém lúpulo e cevada, ingredientes calóricos e, segundo ele, valiam por uma refeição. “Tá, Noel, mas por que misturar conhaque?” – “Porque não se deve beber de estômago vazio…”

E foi nessa vida boêmia que encerrou sua linha do tempo aos 26 anos, sempre com muito samba e cerveja.

Fonte: “Hic! Stórias. Os maiores porres da humanidade.”, de Ulisses Tavares.

Música: Com que roupa?

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Um pouco de São Paulo, um pouco de Brasil

Pela primeira vez em anos, acordei cedo no domingo de manhã. Pelo único e interessante motivo de fazer um passeio pelo centro de São Paulo guiado pela dona Neuza, uma senhora super simpática de 79 anos. Nos encontramos no Centro Cultural do Banco do Brasil, onde ela começou a contar a história dos principais prédios e monumentos do centro, conectando-os a sua própria história de vida.

Depois de alguns passos, acordei para uma cidade que eu ainda não conhecia, mesmo morando aqui há quatro anos. Entre causos incríveis e badaladas de sinos, acabamos fazendo uma pequena parada na Padaria Santa Tereza. De origem lusitana, é considerada uma das padarias mais antigas do Brasil, fundada em 1872. Antes, ficava na Santa Tereza, uma rua que desapareceu com a remodelação da Praça da Sé, o que fez com que se mudasse para a rua João Mendes, 150, nas costas da igreja. Em 2006, foi inaugurado o segundo piso, onde tem um charmoso restaurante no estilo “São Paulo antiga”, digamos assim, com assoalho de tábuas da velha guarda e fotos lindíssimas que contam um pouco da história da cidade (o elevador é uma atração a parte).
Por ser uma parada relâmpago, acabei me detendo a um quindim acompanhado do bom e velho espresso, pra dar um gás no restante da caminhada. Nada surpreendente, mas honesto a ponto de me encher de vontade de voltar.
O restaurante me parece ser um bom motivo para reunir os amigos e viver um pouco da história de uma cidade muito mais fascinante do que a maioria das pessoas poderia imaginar. Vai lá, mas não deixe de aproveitar um domingo ensolarado para tirar o mofo e dar uma boa caminhada.
Obrigado, dona Neuza!
Em tempo: jamais teria passado por essa experiência incrível se não fosse o convite insubstituível do Celo e da Lu.