Geladeira remasterizada

Minha geladeira andava sufocada pelos excessos de ímãs e papéis desnecessários presos na porta. Decidi fazer uma faxina e dar uma nova cara pra dita cuja. Ela já tinha os dois olhinhos, um desenhado e outro de adesivo, então, decidi soltar a mão e ver onde chegava fazendo um traço depois do outro. Enquanto orgias acontecem na porta ao lado, me desenrolo em linhas e devaneios, sem pensar, sem travar, só me deixando levar. No fim, deu uma bela renovada e criou um clima ainda mais legal pra minha cozinha. O resultado tá aí embaixo.

A menina e a maçã

A experimentação é uma das coisas mais curiosas e estimulantes da vida. Ela nos impulsiona para o novo, seja nas emoções ou na racionalidade. De uma maneira bastante empírica, juntei a delicada ilustração da menina com a maçã, feita em papel paraná (o qual quase matou a ponta do meu dedo indicador direito de tanto apertar o estilete para cortá-lo com precisão) com essa moldura pesada dos anos 30, encontrada em um antiquário no centro de São Paulo (quase tive que dar um de meus rins por ela). A combinação me fazia delirar, mas faltava algo para dialogar entre os dois elementos. Comecei a andar lentamente pelo apartamento, olhando atento para todos os detalhes. Foi quando avistei uma caixa transparente cheia de embalagens de bombons Ferrero Rocher. São lindos papéis metálicos que me fazem lembrar a infância, especificamente, quando eu alisava aquele lacre metálico das latas de Nescau com uma colher pra fazer desenhos com palitos de dente. Me debrucei sobre as embalagens com uma colher, régua e estilete e comecei a testar combinações. O resultado foi o fundo xadrez da obra, fruto de uma longa de relação de paciência com esses materiais. Foi um processo lento e trabalhoso, também, porque a obra não foi pré-concebida, mas sim, se transformando a partir de mergulhos com os materiais e a história que eu pretendia contar, que revela características que admiro no universo feminino, como a capacidade de retratar o romantismo com força e delicadeza. No caso, essa obra é abraçada por um certo ar medieval, coisa que me agrada bastante, pois nela, tem um apreço pelos sentimentos, algum pudor nas suas expressões e um desejo latente habitando a relação entre a menina e a maçã.

Trilha sonora: Long way home, Tom Waits (vale a pena escutar a versão da Norah Jones)

Traços de loucura

Desde a infância, sou tomado por dias de hiperatividade. Uma verdadeira montanha russa existencial, que horas me traz a paz e a tranquilidade de um monge, horas me leva sem pára-quedas até a porta do avião.

Em dias de ansiedade e inquietação, acabo canalizando minhas energias em tarefas minimamente produtivas. Às vezes, tento me convencer de que elas têm algum fruto, em outras, consigo vê-los brilhando no topo da árvore que sou. Foi num desses dias descompromissados e agitados que acabei desenhando algumas louças aqui de casa. Cacos velhos e sem padrão ganharam o bom humor e a ironia de um traço pouco pensado, mas leve como o vento de uma manhã ensolarada. Entre bigodes, óculos e retrato do meu sobrinho, a cozinha ganhou sutilezas e sorrisos internalizados, enquanto eu, uma sensação de reinventar a vida a partir de detalhes.
Compre uma caneta para porcelana e se arrisque estragar algumas louças. Talvez você se dê conta que não é uma grande revelação no desenho, mas sem dúvida, irá relaxar e colocar um pouco de si nos pequenos atos ordinários do dia-a-dia, que passariam despercebidos pelos olhos da maioria. Libere a mão e a mente e deixe a casa ser invadida de algum bom humor.
Os novos habitantes da minha cozinha.