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Dois meses sem carne

Desde que saí de casa, minha alimentação passou por algumas boas mutações. Essa temporada de mudanças já tem mais de 10 anos, desde que deixei o conforto da mesa servida do pai e da mãe. Faz anos que minha alimentação é predominantemente vegetariana, mas não era totalmente livre de carne. Ainda me entregava para os mais diversos pratos com carnes de todo o tipo e mergulhava em frios no café da manhã.

Há alguns bons meses, venho reduzindo meu consumo de carne e, há menos de três meses, eliminei a carne completamente do meu cardápio. Meu paladar foi alterado pela ideologia. Na convivência com manifestações veganas, maestradas pela Vanessa – grande amiga que tem dividido o mesmo teto que eu -, acabei me sensibilizando e entendendo que podemos incorporar um novo consumo, livre de crueldade.
Comecei de maneira bastante modesta, colocando alguns princípios éticos em minhas refeições, rejeitando ingredientes como a vitela e o foie grois. O primeiro é porque acho um tanto radical comer filhotes, independente da espécie, ainda mais quando são confinados e tem sua curta vida destruída por caprichos humanos, e o segundo pelos problemas de fígado que o bicho enfrenta ao ter alimentação forçada da forma mais radical possível, com canos enfiados forçadamente no esôfago. Depois disso, comecei dando minha preferência para carnes que tivessem procedência, no sentido de garantir o bem-estar animal, no entanto, não existem normas que garantam isso, pelo menos, não que eu conheça.
Em quase três meses de alimentação vegetariana, senti resultados ótimos no corpo e pude comprovar na pele que só passa fome quem não coloca a cabeça pra funcionar. Minha vida se encheu de novas receitas e experimentos que estão garantindo uma fase feliz, leve e criativa. Se vou continuar com essa política, um pouco extrema na visão dos meus pais, eu não sei, mas estou feliz com a decisão que tomei.
Se quiser entender um pouquinho mais no que implica aquele bifinho ou o peitinho de frango que diariamente você põe no prato, assista A Carne é Fraca. Um documentário mal produzido, mas que te faz acordar para assuntos que jamais entraram em pauta na vida dos carnívoros. Assista e reflita. No mínimo, você vai reforçar sua convicção ou destruir as velhas estruturas que darão espaço à uma nova postura.

Compotas de lamber os beiços

Feriado e comida combinam. A Vanessa e a Érica passaram a noite de quinta na minha casa. Fomos dormir cedo, mas acordamos com a corda toda pra iniciar uma jornada pelos sabores da cozinha vegana. Passamos num feirão perto de casa e enchemos um carrinho de legumes, frutas e verduras. Estávamos decididos a passar o feriado na cozinha. Preparamos um penne frito e cozido no caldo de legumes (feito artesanalmente, pra não perder o romantismo), servido com molho à base de cogumelos paris in natura e salsa. A massa deu certo, mas já descobrimos maneiras de deixá-la ainda melhor: cozinhando o caldo de legumes por mais tempo em fogo baixo. Mas, a grande atração do dia foram nossas compotas, que encheram nossa tarde de cores, experimentações e nostalgia. Dá uma olhada em algumas das receitas que aprontamos no dia do trabalho.

Pimentões ao forno
Vermelhos e amarelos. Pegue 4 de cada. Ou mais. Besunte tudo com azeite de oliva extra virgem, sal grosso, pimenta verde, tomilho fresco e um exagero de alho. Como foram muitos pimentões, tive que dividir em duas formas, o que me fez brincar um pouco mais com os sabores. Na segunda travessa, acrescentei salsa picada e saquê. Tudo pro forno. Cochilamos assistindo TV, depois de um almoço vegano pra lá de bom. Acordei e corri num susto para a cozinha ao lembrar que tinha esquecido tudo no forno. O que poderia ter virado os restos de um incêndio, se transformou em um antepasto saborosíssimo. Os pimentões tostaram e ficaram com um gosto adocicado em meio ao perfume dessa combinação deliciosa. Colocamos os pimentões em vidros de molho que sobraram de outras aventuras semi-industrializadas na cozinha e completamos com azeite de oliva extra-virgem. Foi uma extravagância de azeite. E é assim que tem que ser. Renderam dois vidros super coloridos e um foi detonado já no almoço do dia seguinte. Nada mais gostoso que se lambuzar comendo essas delícias coloridas no meio de um pão fresquinho.
Beringelas tostadas
Pegue mini beringelas e as corte ao meio. Coloque uma panela pra esquentar e toste a parte de dentro das beringelas direto na chapa quente. Depois disso, tempere essas metades tostadas com sal, pimenta verde, tomilho fresco, alho e muito azeite de oliva extra virgem. Depois de fazer uma bela massagem nessas pequenas, você as manda pro forno. Deixe lá por uns 20 ou 30 minutos. Vai no feeling. Prefiro não ditar tempos e quantidades porque acredito que a comida deva ter esse lado intuitivo funcionando durante o preparo. Assim que estiverem assadas, as acomode gentilmente em um vidro, complete com azeite extra virgem e tampe. Simples, simples, mas bom demais.
Tomatinhos cereja
Num potinho, misturei azeite extra virgem com sal, pimenta e alho. Mexi com vontade para garantir que esses sabores se envolvessem com o protagonista dessa compota. Coloquei alguns tomatinhos e fui intersectando delicadamente com folhas de manjericão e alho. No final, completei com mais azeite até todos os ingredientes ficarem imersos. Fácil de fazer, mas um charme para servir seus amigos com uma cesta de pães e um belo vinho.
Tente fazer isso em casa. Abra um vinho ou tome alguns goles de uma cachaça que preste e aprecie a tonturinha ao lado de amigos queridos. É um grande prazer poder alimentar e ser alimentado, não apenas o corpo, mas a mente e a alma. É simples.
Trilha sonora: cd duplo da Nina Simone, Tell it like it is. Inexplicável.

Comida de merda

Saí da academia lá pelas 13h15, tomei um banho de chuva e decidi comer num lugar mais rápido e com menos executivos. Tinha uma reunião às 14h30 e tudo que eu precisava era de um pouco de praticidade e menos desconforto por estar todo molhado da chuva. Nessa, acabei apostando no restaurante vegetariano Vila Manjerona, que eu já havia ido umas duas vezes. Minha gente, não sei se foi um dia ruim ou se o cozinheiro foi substituído por qualquer outra pessoa que tenho medo até de imaginar. 

Uma comida chocha, com pouca variedade e com ingredientes de qualidade duvidosa: brócolis murchos e sem cor cozidos no vapor com cenouras do mesmo naipe, carregados de temperos desidratados. Um mau gosto, gente amiga, que assustou. A potreína de soja era uma esponja insôsa de dar dó, uma moranga cheia de uma gosma amarelada que parecia creme de milho com depaços de coisas indecifráveis no meio, não tive coragem de provar. De resto, saladas com folhas horríveis, cebolas cobertas de tomilho desidratado, ruim só de ver, sopa de feijão ralinha, sem sabor, o arroz integral dava pra fazer sushi de tão grudado, os caras cozinharam a ponto de estourar os grãos. Um horror! É um buffet livre (menos mal pra eles, porque poucos dariam lucro comendo por quilo, apesar de que o público deve se fazer de pessoas de paladar ordinário e novos clientes, dos quais, muitos não devem voltar), incluindo suco e sobremesa por R$ 12. Não vale a pena. Detesto sobrar comida no prato, mas não tive tolerância suficiente pra engolir aquela gororóba. Fui obrigado a desistir da sobremesa inclusa no pacote. Na minha vida, ficou comprovado, duvide de comida “alternativa” e vegetariana que custe muito pouco. Isso vai refletir em algum lugar, seja no preparo, nos ingredientes ou mesmo na limpeza. Vai por mim.
A Vila Manjerona fica na rua Jesuíno, 411, na Vila Olímpia. Não vá!