O que faz você se sentir sortudo?

Tosco, mas engraçado e empolgante. Assisti um vídeo divertido sobre um vinho chamado “Evolution”. Não sei se o vinho é bom ou não, se está nas altas listas. Também, pouco me importa. A questão aqui é o posicionamento dos caras em relação ao produto: “What makes you feel lucky?”. Primeiro, a constatação: muita gente acredita em sorte. Segundo, o que faz com que elas se sintam com sorte… Começa com a revelação de pequenos amuletos: ferradura, meias esportivas, mullet, anel, tesoura, pulserinha, baquetas, gato… e a brincadeira termina na garrafa de vinho e nas pessoas que trabalham nos vinhedos.

Vale a pena assistir, pois além de engraçado, a trilha é boa demais. No fim, não tem como não pensar: O que me faz sentir sortudo? Pra mim, transparência, ir na feira e tentar multiplicar o que as pessoas tem de melhor dentro delas. Tudo isso me desperta um sentimento, assim, de fazer certo, de regar a sorte. E você?

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O vinho está sempre lá

Muitas foram as noites em que abri uma garrafa, distante de qualquer motivo nobre. De todas as bebidas e todas as noites existenciais que o álcool me reservou, foi o vinho o melhor parceiro das reflexões. Lembro de uma das noites que passei em São Paulo, logo que negociava minha vinda pra cá. Rabisquei todos os pedaços de papel que encontrei naquele apartamento cheio de marmanjos dormindo. Era um espaço onde colegas de trabalho dividiam sua vida fora da empresa. Eu fiquei com a sacada e meu porre pensativo. Eram muitas luzes e todas as possibilidades. Eu era nada, mas podia ser tudo. São Paulo era pura possibilidade. Eu continuava sendo nada. Bukowski fazia todo o sentido e parecia beber comigo ao meu lado.

De todas as vezes que me embriaguei de vinho, em todas fui até o banheiro observar as gengivas e a boca tingida. Muitas foram as vezes que apelei pro desabafo digital, pro guardanapo de papel rabiscado por mil fragmentos de pensamento e, em poucas e infelizes vezes, pra agenda de telefone ressuscitar velhos contatos. Muitos foram os mendigos que parei na rua pra tentar entender um pouco daquele mundo de absurdos. Muitas foram as amizades efêmeras que nasceram do encharcar de vinho. Bendito Dionísio!

Devo muito ao vinho, mesmo o conhecendo pouco. Mas nesse sentido, conheço nem a mim mesmo direito, quem dirá o vinho! (que, partindo da minha ótica pessoal e intransferível, é bem menos amável. Afinal, alguém tem que amar a gente acima de qualquer outra coisa, nem que seja a gente mesmo.) O vinho me reservou grandes noites, grandes ideias e grandes fiascos. O vinho é grande. Não tem situação que não pareça melhor com o dito. Mesmo ele tendo a capacidade de te levar até o bueiro. Entre glórias e vômitos, não teve vida que não imaginei bêbado.

Gosto da ideia dos convites, das promessas etílicas, das noites reservadas pra algo que olha o ordinário de cima. O vinho tem isso, esse dom de melhorar as coisas, de amolecer os durões e nos fazer visualizar um pouco do que seria uma vida melhor.

Não sei se um dia serei adepto daquela tacinha diária no almoço, mas posso garantir que o bom vinho sempre estará ao meu lado, mesmo que seja observando o porre dos outros, porque a vida não se faz só do que a gente experimenta.

Um mergulho com Vane

É incrível como a comida tomou um papel importante na minha vida, a ponto de me motivar da maneira mais genuína que se possa imaginar. Sábado de carnaval, encontrei um casal de amigas no mercado municipal de São Paulo. A Vane é uma grande amiga das antigas, filósofa, que estuda e defende a ética na alimentação, uma vegana convicta e lúcida nas suas atitudes e na busca de suas respostas. Decidi entrar na onda e me alimentar daquela atmosfera curiosa que se formou em torno dela. Passeamos pelos corredores coloridos de frutas, verduras, legumes, temperos, queijos, azeites de toda qualidade, castanhas de todos os tipos e gente experimentando esses sabores que preenchem todos os sentidos. Fiz umas comprinhas e descobri que o mercado municipal não tem nada de barato. Já tinha tempo que eu não pisava por lá, no entanto, não esperava que os preços estivessem beirando a falta de noção, como cobrar R$ 30 o quilo de caqui. Não dá, vamos combinar.

Tudo bem. Acabamos fazendo uma espécie de pique-nique numa das mesinhas do mercado, com alcachofras, cogumelos e alhos em conservas deliciosas, pasta de berinjela, pães finíssimos e crocantes e, para acompanhar, um suco de carambolas frescas pra lá de saboroso.
A Érica, namorada da Vane, precisava deixar alguns ingredientes em casa, então, saímos de carro pelo centro e ficamos dando voltas pra ver a cidade, que tava linda com a luz do final da tarde. Acabamos na Liberdade, andando pelas ruas e entrando naqueles mercadinhos cheios de tudo quanto é coisa que a gente não conhece. Tinha esquecido de como é bom mergulhar num mundo que não é seu e começar aprender com as dicas mal ditas pelas imigrantes de lá.

“Esse é tempelo. Calne, bom, bom na calne. E esse? Non non, esse não sel tempelo… Eu sei, mas o que é isso? Non é tempelo…”

A experiência em si é um barato. Você se diverte, descobre coisas novas, compra ingredientes bem mais em conta, dependendo em qual mercadinho entrar, e viaja nos costumes do povo de lá. Isso me rendeu uma sopa de cogumelos que comprei empacotada, daquelas embalagens de plástico com um monte de cogumelos desidratados, bolinhas e pedacinhos de plantas que você jamais viu na vida. Decidi fazer essa sopa para o jantar de segunda. Aquilo deve ter fervido por umas 3 ou 4 horas, mas os ditos cogumelos não amaciavam nunca! No fim, consegui um caldo saboroso, mas minha fome e falta de paciência em esperar mais, me fez mastigar os talos fibrosos de aparência demoníaca daqueles cogumelos. Sobrou, mas decidi não comer o resto, pra não tirar a mágica da “experiência única”.

Enfim, voltando pro eixo da história, acabamos no meu apartamento esperando a Érica chegar, abrimos um vinho e fiz uma vestimenta nela com um lençol – como aqueles saiotes amarrados dos indianos – e ficamos batendo papo e bebendo sem camisa. A Érica chegou e tomou um susto vendo a Vane sem camisa por trás da bancada. Parecia pelada. Aproveitamos e fizemos um belo ensaio de fotos, que estão servindo como base de algumas pinturas e desenhos que estou fazendo. Pra jantar, preparei um espaguete de abobrinha e cenoura (os legumes são cortados como espaguete, não tem massa essa receita) com shitakes tostados e molho à base de azeite e louro. Ficou bom, mas considero uma receita que precisa ser lapidada. De qualquer forma, caprichei na decoração, fazendo uma torrezinha circular com cogumelos inteiros e mini pimentas em conserva, dispostos em um belo prato branco quadrado. Bebemos duas garrafas de carmenére e deixamos a noite se tornar um registro da nossa juventude. Foi divertida, estimulante e profunda. Um daqueles encontros que jamais sai da memória.


As formas de Vane inspiraram a nova tela inacabada.

A gamela mágica

Florianópolis, praias, montanhas, natureza e um tempo de merda! Viajei a trabalho durante quatro dias, hospedado no Costão do Santinho, que foi considerado o melhor Resort Praia do Brasil algumas boas vezes. Do minuto em que cheguei à madrugada final da minha estadia, a chuva e o céu cinza dançaram como loucos sobre minha cabeça, sem poupar o sapateado.

Depois de dois dias de muito trabalho e viradas de noite, acabei fazendo um pit stop pra rever uma grande amiga de Floripa, a Chef Didi, já comentada por aqui (a dona do santo cookie).
Não havia dúvida que acabaríamos em uma orgia gastronômica em algum lugar, só não se sabia onde e como, mas sabíamos da comida. Decidimos passar no mercado e preparar uns quitutes em casa. A mente efervescente da Didi pariu uma idéia que acabou virando uma surpresa deliciosa. Entre legumes, camarões frescos e salmão, existia minha dúvida se aquela seria a receita ideal pra uma noite de frio. Passamos em um empório e compramos um vinho rosé brasileiro, da Villa Francioni. Continuei reticente, principalmente, porque não sou um grande fã de vinhos brasileiros.
Chegamos em casa, fizemos fogo na churrasqueira e começamos um espetáculo na grelha. Cogumelos inteiros, tomates pela metade e brócolis temperados ao azeite e curry, camarões frescos e salmão com ervas, pimentão verde, cebola roxa, uma peça maravilhosa de queijo gruyere e 
pães. Tudo tostando na grelha.

Abrimos o vinho e cheguei a conclusão de que a língua é o chicote da bunda. Um rosé que ganhou meu respeito e me fez olhar para esse “terroir brasileiro” com outros olhos.
Essas maravilhas douradas foram servidas em uma gamela de madeira, acompanhadas de alecrim e queijo brie. Tudo consumido à mão, de maneira viceral e insubstituível.
A noite foi uma odisséia regada a sabores intensos, conversas deliciosas em inglês e tonturinha de vinho bom.
Na manhã seguinte, iniciei meu dia tomando um belo café da manhã no Dom Joaquim, café onde a Didi chefia a cozinha. Além da boa lembrança da noite anterior, provei um cheesecake de lamber os dedos, também criatura da Chef Didi.
No meio de trabalho e loucuras que a economia coloca em nossas vidas, precisamos buscar conforto nesses pequenos prazeres, pois são eles que acabam fazendo da nossa vida o que a vida realmente é.